16 janeiro 2008

Mulher ao Espelho















Hoje, que seja esta ou aquela,

pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já foi morena,
Já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida

do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.



Poema de Cecília Meireles in "Mar Absoluto"
Imagem de Norman Rockwell "Menina ao Espelho"

2 comentários:

Miss Slim disse...

Gosto muito de Poesia e C. Meireles então - Adoro:)

Kiss e Bom Fim de Semana :)

moonlight disse...

É uma grande poetisa que infelizmente muita gente desconhece. Sou fã da poesia dela.
Beijo e bom fim de semana :)