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16 outubro 2010

A felicidade exige valentia



Cruzei-me com estas palavras de Fernando Pessoa e não pude ficar indiferente. 
Que lição de vida!





"Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…"

 
In “A felicidade exige valentia”

16 setembro 2009

O andaime



O tempo que hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.

E esperança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha esperança.
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só as lembranças,
Mas as mortas esperanças -
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já moto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que e devera ser - muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

Fernando Pessoa in "Cancioneiro"
Na foto: "O pensador" de Auguste Rodin

05 fevereiro 2009

Dizem que Finjo ou Minto


Dali - "Woman at Window"

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


12 abril 2008

Autopsicografia



O poeta é um fingedor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só as que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.



Fernando Pessoa  in  «Poemas 1908-1935»
Imagem: Fernando Pessoa retratado por Almada Negreiros

29 março 2008

O Sono é Suave



O SONO É SUAVE, mas o meio-sono
É mais suave ainda. Estar sabendo
Que se está nesse lúcido abandono
É como a brisa à sombra se entretendo.

O amor é suave, mas o amar-talvez
É mais suave ainda. É como estar
Sobre a extensão alegre de um convés
A fitar sem os ver o céu e o mar.

A vida é suave, mas poder haver
Outra melhor é mais suave ainda.
É como entre a erva alta o malmequer
Que, uma vez visto, todo o campo alinda.

Assim, sob altos ramos rumorosos
Pensei, e a breve e incerta viração
Dava-me pensamentos mais ditosos
Do que quaisquer felicidades dão.

Pouco sabemos do que há ou somos.
Nada sabemos do que nos espera.
Para uns a vida é fruta, com seus gomos
Para outros é só a primavera.


29/06/1919
Fernando Pessoa in «Poemas 1908-1935»
Foto «Moon Quietness» de Jacinto Policarpo


02 fevereiro 2008

SOPRA DE MAIS o vento


SOPRA DE MAIS o vento
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer cousa que vai parar...

Talvez esta cousa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta cousa calma
Que me faz a alma vivida...

Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.

Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!


05/11/1914 - Fernando Pessoa in "Poesia do Eu"
Foto: "Endless stories by the wind" - Nuno Milheiro

04 março 2007

Mar Português


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu.
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa in «Mensagem»

04 fevereiro 2007

O Amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p´ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber se a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa in «Poesias Inéditas»